Saturday, April 15, 2006

 

Discriminação e discriminação!

Editorial

[06-04-2005]

Na sequência do nosso último editorial, recebemos diversas reacções, umas positivas saudando o que estava escrito, outras negativas afirmando que o editorial estava a ser injusto para com moçambicanos de cor não negra, pois os punha numa situação em que poderiam ser confundidos com estrangeiros, apenas por não possuírem pele negra.

Por causa dessas reacções, decidimos voltar ao assunto, pois o mesmo nos parece candente e de actualidade.
De facto, o tema “discriminação” merece e precisa de uma abordagem holística e profunda.

Quando falamos de discriminação de moçambicanos estamos a dizer que estamos contra ela, quer seja praticada por estrangeiros contra moçambicanos, quer seja praticada por moçambicanos contra moçambicanos, quer ainda seja praticada por autoridades contra cidadãos. Estamos contra a discriminação quer seja praticada por brancos, quer por negros, quer por indianos, ou por mulatos.

Alguns disseram-nos que não deveriamos ter ficado indignados com as “estrelas da noite”do dia 12 de Março porque aquelas “estrelas” são, na sua maioria, moçambicanas e se foram “estrelas”é porque são competentes.

Não temos nada que duvidar da sua competência nem da sua nacionalidade. Questionamos, sim, os critérios utilizados, os quais fazem com que a competência no Standard Bank seja monopólio de pessoas de determinada raça quando no mesmo banco labutam, lado a lado, várias raças.
Disseram-nos que em vez de “desencorajar” jovens moçambicanos de talento bancário, que sobressairam na noite do dia 12 de Março, deveriamos estar concentrados a atacar a discriminação que é praticada por estrangeiros contra técnicos moçambicanos, independentemente, da sua cor.

Nós optamos por atacar a todos os que praticam discriminação, sejam eles estrangeiros, sejam eles nacionais porque o que está em causa nem é a cor nem a nacionalidade do “discriminador”, o que está em causa é o fenómeno discriminação, que é implicitamente utilizado como um processo social de capacitação e “empoderamento” de um determinado segmento social em detrimento doutros segmentos do mesmo País.

Se expusermos todos os trabalhadores de um banco às mesmas oportunidades profissionais e sociais o resultado disso é que teremos bons quadros de todas as raças dentro desse banco.

Se excluirmos um segmento e fixarmos a nossa atenção numa determinada raça o resultado é que teremos essa raça mais bem apetrechada devido às oportunidades oferecidas.

Se partirmos do princípio de que dentro de uma instituição as “estrelas”têm que ter determinadas características raciais, então, estamos a retroceder 100 anos para reeditar processos já ultrapassados das raças puras, das raças mais inteligentes, cujas consequências foram as guerras mundiais que dizimaram milhões de seres humanos neste planeta.

Se nos quisermos basear na teoria de que cidadãos de uma determinada raça entendem melhor uma profissão que os doutras raças estamos a retroceder uns trinta anos da nossa História quando, a real falta de quadros constituiu uma oportunidade para a discriminação de toda a sorte, até racial, com argumentos tais como “aqueles já tiveram uma certa vivência mesmo no tempo colonial por isso entendem mais rapidamente a Revolução”, ou como disse mais recentemente um conhecido professor universitário moçambicano, infelizmente já falecido, “os jovens de raça branca ou indiana entendem melhor o Direito Comercial do que os jovens negros porque os primeiros já possuem, historicamente, uma certa vivência com as matérias tratadas no Direito Comercial”!

Por outro lado, quando questionamos os critérios utilizados pelo banco para a selecção das “estrelas” não estamos a pôr em causa as “estrelas” seleccionadas, pois elas não se auto-seleccionaram.

Estamos a pôr em causa a atitude discriminatória de um banco que não quer “pesquisar” mais estrelas em todos os segmentos raciais existentes dentro da instituição, contentando-se com o que fez, dando, assim, a entender que naquele banco só aquelas “estrelas” é que, de facto, têm competência.

É que há uma mania neste País, a de que quando se fala de sectores económico-financeiros o protagonismo pertence a uma determinada camada social mas quando vamos para outros sectores, igualmente, vitais para a vida da nação, tais como exército, polícia, enfermagem, docência primária e secundária as mesmas camadas minguam, como se não fossem mais moçambicanas.

É aqui onde entra a responsabilidade dos gestores do Estado, os quais não podem fingir que o que se passa é normal para a estabilidade e equilíbrio do País a médio e longo prazos.

O que se passa no País é anormal e deve ser corrigido quanto cedo para que amanhã não seja fonte de guerras fratricidas entre cidadãos da mesma nação.

Sem prejuízo de acções profilácticas de implementação imediata, a via mais segura para a correcção desse mal, a longo prazo, é o governo agir sabiamente no apoio e incentivo às camadas mais desfavorecidas da sociedade para seguirem determinadas vocações estratégicas para o futuro do País.

Para isso, um sistema nacional de bolsas de estudo para determinadas áreas científicas e/ou de gestão deveria figurar nas prioridades estratégicas do novo executivo.

Não podemos continuar a ficar assustados com as consequências. É altura de atacarmos as causas e para isso este País tem governo e tem quadros suficientes para diagnosticar as causas e apontar caminhos que levem às soluções.

Enquanto isso, não vamos aceitar que, a pretexto de teorias de comprovação duvidosa, nos discriminem na nossa própria terra!
Jamais nos calaremos perante actos aviltantes de discriminação, venham eles do capital estrangeiro, venham do capital nacional, ou dos dois ao mesmo tempo.

Salomão Moyana

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