Saturday, April 15, 2006

 

Chega de discriminar moçambicanos!

Editorial

[30-03-2005]
Em Moçambique, a discriminação, de vária ordem, contra os moçambicanos está na moda. Aqui, no jornal, estamos cheios de exemplos que os cidadãos nos vêm contar todos os dias da mais pura discriminacão, não só racial mas, em muitos casos, nacional.

Isto é, ser discrimninado não porque se é negro ou branco mas ser discriminado porque se é moçambicano.
O pior disso tudo é que, como nos dizia um jurista de renome na praça, a Constituição da República de Moçambique proíbe qualquer tipo de discriminação, quer negativa, quer positiva (afirmative action).

Por causa dessa proibição constitucional, acrescentava o mencionado jurista, “racista passará a ser não quem pratique o racismo no seu dia a dia, e das mais diversas formas, mas quem sobre ele fala e escreve”.

Assim, o presente editorial do ZAMBEZE corre o risco de ser catalogado de racista e até xenófobo, já que é mais fácil ver racistas e xenófobos na escrita do que nas acções quotidianas que cada indivíduo, instituição ou sector pratica.

Esta semana, tivemos conhecimento de que a ministra do Trabalho, Helena Taipo, formou uma comissão e mandatou-a para ir investigar cenas de discriminação alegadamente praticados no Banco Austral. Não sabemos se tal acto resulta de uma denúncia ou da suspeita da ministra de que ali existem actos discrimantórios contra trabalhadores nacionais.

Se isso resulta de uma simples suspeita, gostariamos de encorajar a ministra a suspeitar em mais bancos e em mais isntituições de investimento estrangeiro sem que isso se traduza na perseguição ao bem-vindo investimento estrangeiro a Moçambique.

Todos nós precisamos de investimento estrangeiro em Moçambique, mas exigimos que tal investimento não se traduza na humilhação e coisificação da nossa dignidade e personalidade como moçambicanos que somos.

No passado dia 12 de Março, o nosso jornal sentiu na carne a humilhação e coisificação de todo um povo quando numa pomposa cerimónia realizada numa das casas de pasto da capital, o Standard Bank homenageou aquilo que chamou das suas “estrelas” daquela noite, tendo nos mostrado os senhores Abdul Mussá Ayob Rentula, Abdul Vahid Abdul Razac, Amiro Issufo Baguandás, Camaria Ismael Chutumiá, Fausio Mussá, Kenrick Wayne Cockerill, Muktar Momade Abdulacarimo e Odília Alice D. Magaia Roberts.

De realçar que, em termos moçambicanos, a Senhora Odília era a única estrela negra daquela noite numa cerimónia de um banco a operar em Moçambique desde 1894, portanto, há precisamente 111 anos de convivência com gente negra deste País.

Na mesma cerimónia, o Zimbabwe e o Malawi também apresentaram as suas estrelas da noite, tendo sobressaido cidadãos nacionais daqueles países, o que nos envergonhou ainda mais na nossa própria terra.

Aliás, o Standard Bank é servido por cerca de 400 trabalhadores, na sua maioria negros qualificados, experientes e com diplomas universitários iguais aos das estrelas ali exibidas.

Mas, o problema deste banco não reside apenas na exibição de estrelas alheias aos moçambicanos. O problema é muito mais profundo e prende-se com a filosofia e o posicionamento da instituição neste território. Também prende-se com a apatia do nosso Banco Central sobre como devem estar estruturadas e a funcionar, aqui neste País, as instituições de crédito estrangeiras.

Por exemplo, o Standard Bank, apesar de estar aqui há 111 anos não possui em território nacional o seu Conselho de Administração. Esse funciona fora do País.

O que possui em Moçambique é uma Comissão Executiva totalmente preenchida por cidadãos estrangeiros, como se segue: Carlos Antolin Ramalho, Administrador-delegado, português natural de Lisboa; Anton Marais, vice-administrador delegado, sul-africano de origem afrikaner; António Caroto Coutinho, sul-africano de origem portuguesa; Olinto José Mota e Silva, português natural de Angola; Artur Nobre, português natural de Angola; François Fourier, sul-africano de oriegm afrikaner e Michelle Guerreiro, sul-africana.

Como se esta composição fosse pouca, temos a edição do jornal Expresso, de Portugal, do dia 3 de Março corrente, a trazer um anúncio do mesmo Standard Bank convidando quadros com o nível de bacharelato, licenciatura e mestrado para vir para Moçambique trabalhar nesta instituiçãqo de crédito.

O anúncio está no jornal de Portugal. Por falta de quê em Moçambique? Por falta de licenciados? Por falta de bacharéis? Por falta de mestres? Ou porque não interessa o bacharel, licenciado ou mestrado de Moçambique?

Perante isto nós não nos podemos calar, mesmo que nos queiram chamar de racistas. Mas, racistas não somos e nunca fomos. Moçambicanos, sim, somos e seremos até ao fim da nossa vida.

Não temos projectos de mudar de nacionalidade, nem da terra que nos viu nascer. Temos projectos de vivermos condignamente na nossa própria terra, acolhendo os nossos amigos e parceiros que nos vêm ajudar a combater a pobreza mas sem nos humilhar nem nos empobrecer mais, como pretendem alguns.

Doutros bancos, temos também queixas clamorosas, sobretudo do BIM. Mas isso fica para uma próxima oportunidade.

A nossa pergunta essencial é: De que forma é que estamos nós organizados, neste País, para garantirmos o protagonismo dos moçambicanos em todas as esferas da vida económica, social e cultural?

Está mais que evidente o protagonismo político dos moçambicanos. Mas, de que é que vale tal protagonismo político se nos sectores-chave da vida do País o mesmo moçambicano é eternamente subalternizado? Subalternizado não por falta de qualificações, nem habilitações, nem habilidades e, muito menos, capacidades. Subalternizado por uma atitude político-institucional implícita na organização e estruturação desses sectores-chave.

Onde estão as armas jurídicas e institucionais de que se pode valer o moçambicano para inverter a vergonhosa humilhação que todos os dias assistimos, impotentes, neste nosso País?

O extremo de Standard Bank é apenas um exemplo dentre vários que pululam neste País.
O combate contra o “deixa-andar” não deve ser confundido com um processo de humilhação dos moçambicanos. O combate contra o “deixa-andar” deve ser combinado com o combate contra a discriminação negativa dos moçambicanos, encorajando-os a serem protagonistas do seu destino dentro do seu próprio País.

Demais já era a constante humilhação que os moçambicanos sofrem nos países estrangeiros. Agora, na sua própria terra também?!

Por favor, isto não pode continuar assim!
Nos recusamos a voltar a assistir eventos como a vergonha do Standard Bank no passado dia 12 de Março, pelo menos aqui, neste País!

E a ministra do Trabalho não pode ser deixada sozinha a combater os males que são tolerados por outras instituições nacionais. Deve haver um posicionamento institucional claro de todo o governo moçambicano contra práticas anti-nacionais em todos os sectores de actividade.

Só assim é que valerá a pena ser moçambicano. Só assim é que terá sentido e utilidade todo o investimento estrangeiro no País.

Salomão Moyana

Fonte: zambeze

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